A elite
Capítulo 1
A ATMOSFERA DE ANGELES ESTAVA TRANQUILA. Permaneci imóvel
por uns instantes, ouvindo o som da respiração de Maxon. Estava cada vez mais
difícil encontrá-lo em um momento calmo e feliz de verdade. Aproveitei aquela
ocasião ao máximo, agradecendo por ele estar, aparentemente, em sua melhor
forma enquanto estávamos a sós.
Desde que a Seleção
conta agora com apenas seis garotas, ele está mais ansioso que no começo,
quando as trinta e cinco chegaram de uma vez. Imaginei que talvez ele tivesse
pensado que teria mais tempo para fazer suas escolhas. E devo reconhecer,
apesar de me sentir culpada, que era por minha causa que ele tinha esse desejo.
Príncipe Maxon,
herdeiro do trono de Illéa, gostava de mim. Ele me falou na semana passada que
se eu dissesse, sem nenhuma ressalva, que me importava com ele assim como ele
se preocupava comigo, toda essa história de competição estaria acabada. Eu até
considerava essa ideia, ficava imaginando como seria pertencer a Maxon.
Mas o problema é:
Maxon não me pertencia, para começo de conversa. Havia mais outras cinco
meninas comigo – meninas com quem ele saía e cochichava coisas – e eu não sabia
o que pensar disso. E também havia o fato de que aceitar Maxon significava ter
que aceitar uma coroa, uma ideia que eu tendia a ignorar, até por não saber ao
certo como isso me afetaria...mari irônica America a selecionada
E, claro, havia
Aspen.
Tecnicamente, ele
não era mais o meu namorado – terminou comigo antes de o meu nome ser sorteado
para a Seleção – mas quando surgiu no palácio como um dos guardas, todos os
sentimentos que eu tinha tentado deixar para trás encheram meu coração. Aspen
era meu primeiro amor. Bastava olhar para ele para saber... que eu era dele.
Maxon não sabia que
Aspen estava no palácio, mas sabia bem que havia alguém da minha província que
eu desejava esquecer, e estava, muito gentilmente, dando-me tempo para superar
a situação enquanto tentava encontrar outra pessoa com quem ele pudesse ser
feliz, caso eu nunca fosse capaz de amá-lo.
Conforme ele mexia
a cabeça devagar, respirando sobre meus cabelos, eu pensava: como seria se eu
simplesmente amasse Maxon?
— Sabe quando foi a
última vez que olhei de verdade para as estrelas? — perguntou ele.
Estávamos deitados
sobre uma toalha no jardim. Aconcheguei-me mais para o lado dele, tentando me
manter aquecida naquela noite fria de Angeles.
— Não faço ideia.
— Um tutor me fez
estudar astronomia há alguns anos. Quando vemos as estrelas mais de perto,
percebemos que na verdade elas têm cores diferentes.
— Calma lá. A
última vez que você olhou para as estrelas foi para estudá-las? E a diversão?
Maxon riu.
— Diversão. Vou ter que
espremê-la entre as votações do orçamento e as reuniões do comitê de
infraestrutura. Ah, e a definição das estratégias militares, no que, aliás, eu
sou péssimo.
— E no que mais
você é péssimo? — perguntei, passando a mão em sua camisa engomada.
Meu carinho
encorajou Maxon a mudar de posição e fazer pequenos círculos em meu ombro.
— Por que quer
saber isso? — perguntou, fingindo irritação.
— Porque ainda sei
tão pouco sobre você. E você parece ser perfeito em tudo. É bom ter uma prova
do contrário.
Ele se apoiou sobre
um cotovelo e fixou os olhos no meu rosto:
— Você sabe que não
sou.
— Mas está quase lá
— respondi.
Nossos corpos se
tocavam de leve. Joelhos, braços, dedos.
Maxon balançou a
cabeça com um sorriso nos lábios.
— Certo, certo. Não
consigo planejar guerras. Sou péssimo nisso. E acho que seria um cozinheiro
horrível. Nunca cozinhei, logo...
— Nunca?
— Talvez você já
tenha notado a multidão de pessoas que trabalham para manter a sua barriga
cheia de bolos e doces... Por acaso, são eles que me alimentam também.
Achei graça. Em
casa, eu ajudava a preparar praticamente todas as refeições.
— Mais — pedi. — No
que mais você é ruim?
Ele me abraçou
forte, e pude ver um segredo brilhar em seus olhos castanhos.
— Descobri uma
coisa recentemente...
— Conte.
— Descobri que sou
um completo fracasso em ficar longe de você. Um problema muito grave.
Sorri.
— Você já tentou?
Maxon fingiu pensar.
— Bem, não. E não
espere que eu vá começar.
Rimos baixo,
abraçados. Era tão fácil, nesses momentos, me imaginar assim pelo resto da
vida.
O farfalhar das
folhas e da grama anunciava a chegada de alguém. Embora nossa situação fosse
completamente aceitável, fiquei um pouco encabulada e me sentei rapidamente.
Maxon fez o mesmo assim que o guarda contornou a cerca para chegar até nós.
— Alteza — disse,
inclinando a cabeça. — Perdão pela intromissão, senhor, mas é imprudente
permanecer do lado de fora por muito tempo a essa hora da noite. Os rebeldes
podem...
— Compreendo —
concordou Maxon, com um suspiro. — Já entraremos.
O guarda nos
deixou, e Maxon virou-se para mim.
— Outro defeito
meu: estou perdendo a paciência com os rebeldes. Estou cansado de lidar com
eles.
Maxon se levantou e
me ofereceu a mão. Segurei a mão dele e reparei na frustração em seus olhos.
Passamos por dois ataques de rebeldes desde o começo da Seleção: um dos
nortistas, que eram apenas baderneiros, e outro dos sulistas, que eram assassinos.
Mesmo com minha experiência mínima, eu podia compreender seu cansaço.
Maxon recolheu a
toalha e começou a sacudi-la. Era claro que ele não estava feliz com aquele fim
antecipado da noite.
— Ei — eu disse,
fazendo-o olhar em meus olhos. — Eu me diverti.
Ele concordou com a
cabeça.
— É sério —
continuei, me aproximando. Ele segurou a toalha com uma das mãos e passou o
braço livre em volta da minha cintura. — Devíamos fazer isso outras vezes. Você
podia me dizer quais são as cores de cada estrela, porque eu realmente não
consigo ver diferença de uma para outra.
Maxon sorriu,
triste.
— Gostaria que as
coisas fossem mais fáceis às vezes. Normais.
Virei para ele e o
abracei. Maxon soltou a toalha e retribuiu o gesto.
— Odeio ter que lhe
revelar isso, Alteza, mas mesmo sem os guardas você está bem longe de ser
normal.
Sua expressão ficou
mais relaxada, mas ainda séria.
— Você iria gostar
mais de mim se eu fosse normal — falou.
— Sei que é difícil
para você acreditar, mas eu realmente gosto de você do jeito que você é. Só
preciso de mais...
— Tempo. Eu sei. E
estou pronto para dar o tempo necessário a você. Só gostaria de ter certeza de
que você vai mesmo querer estar ao meu lado quando esse tempo acabar.
Desviei o olhar.
Aquilo eu não podia prometer. Toda hora, eu olhava para o meu coração e
comparava Maxon e Aspen, mas nenhum deles se sobressaía. A não ser, talvez,
quando eu estava sozinha com um deles. Neste exato momento, por exemplo, eu
estava tentada a prometer a Maxon que ficaria a seu lado no final.
Mas eu não podia.
— Maxon —
sussurrei, após notar que ele estava se sentindo rejeitado por eu não ter
respondido. — Não posso dizer isso. Mas o que posso dizer é que quero estar com
você. Quero saber se há possibilidade de... de... — gaguejei, sem saber ao
certo como me expressar.
— Nós? — Maxon
sugeriu.
Sorri, feliz por
ver como tinha sido fácil para ele me entender.
— Sim — prossegui.
— Quero saber se há a possibilidade de existir um “nós”.
Ele ajeitou meus
cabelos para trás dos ombros.
— Penso que as
chances são bem altas — afirmou, sem rodeios.
— Também penso.
Só... tempo, tudo bem?
Maxon fez que sim
com a cabeça. Parecia mais feliz. Era assim que eu queria terminar nossa noite,
com esperança. Bem, talvez com algo mais. Mordi os lábios e me virei para ele
com olhos desejosos.
Sem hesitar nem um
segundo, ele se inclinou e me beijou. Foi um beijo terno e suave, que me deixou
com a sensação de ser adorada, e com vontade de outro. Eu poderia ter ficado
ali por horas, só para ver se conseguia aplacar aquela sensação, mas Maxon
recuou cedo demais.
— Vamos — disse ele
em tom de brincadeira, enquanto me puxava para o palácio. — Melhor entrar antes
de os guardas virem atrás de nós com cavalos e lanças.
Assim que Maxon me
deixou nas escadas, o cansaço tomou conta de mim. Eu praticamente me arrastava
até o segundo andar e ao canto onde estava meu quarto quando, de repente,
fiquei totalmente desperta de novo.
— Ah! — disse
Aspen, também surpreso em me ver. — O fato de eu ter pensado que você estava no
seu quarto esse tempo todo provavelmente faz de mim o pior guarda do mundo.
Sorri. As garotas
da Elite eram obrigadas a dormir com pelo menos uma de suas criadas no quarto.
Eu não gostava muito da ideia, de modo que Maxon insistiu em manter um guarda
de vigia à minha porta para o caso de uma emergência. O problema era que, na
maioria das vezes, esse guarda era Aspen. Saber que quase todas as noites ele
estaria bem ali na minha porta me dava uma sensação estranha de alegria
misturada com terror.
Aquela
tranquilidade momentânea logo desvaneceu quando Aspen se deu conta de por que
eu não estava sã e salva enrolada nos cobertores. Ele limpou a garganta, tenso:
— Vocês se
divertiram?
— Aspen —
cochichei, olhando em volta para ter certeza de que ninguém estava perto — não
fique bravo. Faço parte da Seleção e as coisas são assim.
— E como eu vou ter
chance desse jeito, Meri? Como posso competir com ele se você raramente fala
com os guardas como eu?
Fazia sentido, mas
o que eu podia fazer?
— Por favor, não se
irrite comigo, Aspen. Estou tentando resolver tudo isso.
— Não, Meri — ele
disse, retomando a voz terna de antes. — Não estou irritado com você. Eu tenho
saudade de você.
Ele não ousou
pronunciar as palavras, mas seus lábios se mexeram: “eu te amo”.
Me derreti.
— Eu sei —
respondi, pondo a mão em seu peito e me permitindo esquecer por um instante
tudo o que estávamos arriscando ali. — Só que isso não muda o lugar onde
estamos nem o fato de eu ser da Elite agora. Preciso de tempo, Aspen.
Ele ergueu a mão
até a minha e assentiu com a cabeça.
— Isso eu posso
dar. Só... tente encontrar um tempo para mim também.
Eu não queria
começar a explicar como isso seria difícil. Apenas abri um sorrisinho antes de
recolher a mão.
— Preciso ir.
Ele me observou
caminhar até o quarto e fechar a porta.
Tempo. Eu vinha pedindo
muito tempo ultimamente. Tinha a esperança de que, se tivesse tempo suficiente,
tudo ia se resolver.
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