terça-feira, 22 de novembro de 2016

Capítulo 14
NO DIA SEGUINTE, observei Maxon discretamente durante o café da manhã. Fiquei imaginando o quanto ele sabia sobre as pessoas que perdiam suas castas no sul. Apenas uma vez ele olhou na minha direção, mas parecia mais interessado em algo próximo a mim do que propriamente em mim.
Sempre que me sentia desconfortável, baixava a mão e tocava o botão dado por Aspen; eu o tinha atado a uma fitinha para servir de bracelete. Aquilo me ajudaria a superar meu tempo no palácio.
Quase ao fim da refeição, o rei levantou-se e todas viramos para ele.
— Como há tão poucas de vocês agora, pensei que seria bom tomarmos um chá amanhã à noite, antes do Jornal Oficial. Visto que uma de vocês será nossa nora, a rainha e eu gostaríamos de ter mais oportunidades de conversar com vocês, conhecer seus interesses e outras coisas.
Fiquei um pouco nervosa. Relacionar-se com a rainha era uma coisa, mas eu não sabia ao certo o que pensar do rei. Enquanto as outras garotas o observavam ansiosas, eu bebia meu suco.
— Por favor, apareçam uma hora antes do Jornal Oficial na sala de estar do primeiro andar. Vocês terão notícias nossas antes de nos ver — concluiu ele, com uma risada, retribuída pelas meninas.
Logo depois, as garotas seguiram rumo ao Salão das Mulheres. Respirei fundo. Às vezes aquele salão, por sua enormidade, me dava claustrofobia. Eu geralmente tentava estar com as pessoas ou usar o tempo livre para ler. Aquele, porém, seria um dia de Celeste: sentar-me em frente à TV e desligar a cabeça.
Mais fácil falar do que fazer: as meninas pareciam mais falantes naquele dia.
— Fico imaginando o que o rei quer saber de nós — tagarelou Kriss.
— Só precisamos nos lembrar de tudo o que Silvia nos ensinou sobre compostura — comentou Elise.
— Espero que minhas criadas preparem um bom vestido para amanhã à noite. Não quero passar pelo que passei no Halloween. Elas são tão cabeças de vento às vezes — Celeste soltou.
— Queria que o rei deixasse a barba crescer — disse Natalie, pensativa. Olhei para trás e a vi acariciando uma barba imaginária em seu queixo. — Acho que ele ficaria bem.
— É, com certeza — falou Kriss em tom de brincadeira, antes de sair.
Balancei a cabeça e tentei focar no espetáculo ridículo diante de meus olhos. Não importava o quanto tentasse, eu não conseguia me desligar da conversa das outras.
Na hora do almoço, eu já estava uma pilha de nervos. O que ele gostaria que eu – a menina de casta mais baixa a permanecer na disputa – dissesse? O que ele gostaria de conversar com a moça de quem esperava tão pouco?
O rei Clarkson estava certo. Ouvi a melodia ondulante do piano bem antes de encontrar a sala de estar. O músico era bom, com certeza melhor que eu.
Hesitei antes de entrar. Decidi que faria uma pausa antes de dizer qualquer coisa, para pensar bem em cada palavra. Dei-me conta de que queria provar que o rei estava errado. Também queria provar que o repórter estava errado. Mesmo se perdesse, não queria chegar em casa como uma perdedora. E fiquei surpresa com o quanto tudo aquilo importava para mim.
Cruzei a porta, e a primeira pessoa que vi foi Maxon, de pé no fundo da sala conversando com Gavril Fadaye. Gavril apreciava uma taça de vinho em vez de chá. O apresentador logo perderia a atenção de Maxon, que cravou os olhos em mim. Eu poderia jurar que seus lábios tomaram a forma de um “uau”.
Virei para o lado e saí, corada. Arrisquei um olhar para Maxon e notei que ele acompanhava meus movimentos. Era difícil pensar racionalmente quando ele me olhava daquele jeito.
O rei Clarkson conversava com Natalie em um dos cantos, ao passo que a rainha Amberly falava com Celeste em outro. Elise bebia chá e Kriss dava voltas pelo saguão. Observei-a passar por Maxon e Gavril, para quem abriu um sorriso terno. Ela comentou algo que fez ambos rirem e continuou a andar, o que não a impediu de lançar um olhar para trás na direção de Maxon.
Kriss veio até mim em seguida.
— Você está atrasada — foi sua bronca de brincadeira.
— Eu estava um pouco nervosa.
— Ah, não há nada com que se preocupar. Foi até divertido.
— Já foi a sua vez?
Se o rei já tinha falado com pelo menos duas meninas, teria menos tempo para me preparar do que imaginava.
— Sim — respondeu Kriss. — Sente-se comigo. Podemos tomar um chá enquanto você espera.
Kriss me conduziu a uma mesa; uma criada apareceu assim que nos sentamos, botando chá, leite e açúcar na nossa frente.
— O que ele perguntou? — quis saber.
— De fato, foi mais um bate-papo. Não acho que ele queira informações exatas. Parece mais querer conhecer nossas personalidades. Consegui fazê-lo rir uma vez! — exultou. — Fui muito bem. E você é engraçada por natureza. É só falar com ele como você fala com os outros que estará bem.
Fiz que sim com a cabeça antes de pegar minha xícara de chá. Kriss fez a situação parecer o.k. Talvez o rei tivesse que se dividir. Tinha que ser frio e decidido para lidar com as ameaças ao país, agir de maneira rápida e firme. No momento, porém, ia enfrentar apenas um chá com um bando de meninas. Não precisaria ser daquele jeito conosco.
A rainha tinha se afastado de Celeste e agora estava falando com Natalie. A expressão de Natalie era incrível. Tive raiva de seu ar sonhador por um momento, mas sua postura era simples e leve.
Dei outro gole no chá. O rei Clarkson aproximou-se de Celeste, que lhe deu um sorriso sedutor. Foi meio espantoso: quais seriam os limites dela?
Kriss se inclinou para tocar meu vestido.
— O tecido é maravilhoso. Com seu cabelo, você parece um pôr do sol.
— Obrigada — eu disse, de olhos meio fechados. A luz tinha refletido no colar dela, e aquela explosão prateada em seu pescoço me cegou por um instante. — Minhas criadas são muito talentosas — concluí.
— Com certeza. Gosto das minhas, mas se for escolhida princesa, vou roubar as suas!
Ela riu, talvez considerando suas palavras uma piada, talvez não. Em todo caso, não gostei de imaginar minhas criadas costurando as roupas dela. Mesmo assim, forcei um sorriso.
— O que é tão engraçado? — perguntou Maxon, aproximando-se.
— Papo de menina — respondeu Kriss, de um jeito provocante. Ela estava mesmo acesa naquela noite. — Estou tentando acalmar America. Ela está nervosa com a conversa com seu pai.
Muito obrigada, Kriss.
— Você não tem nada com que se preocupar. Seja natural. Você já está fantástica — disse Maxon. Ele abriu um sorriso fácil, claramente com o intuito de reativar nossas vias de comunicação.
— Foi o que eu disse! — exclamou Kriss.
Os dois olharam-se e fiquei com a impressão de que formavam uma equipe. Estranho.
— Bem, vou deixá-las continuar com o papo de menina. Até logo.
Maxon nos cumprimentou com a cabeça e foi para junto da mãe.
Kriss suspirou enquanto observava Maxon afastar-se.
— Ele é mesmo demais — comentou, antes de me dar um sorrisinho e ir falar com Gavril.
Fiquei observando aquela dança curiosa diante de mim: pessoas formavam pares para conversar e depois separavam-se para encontrar outros. Fiquei até feliz quando Elise veio para o meu canto, embora ela não tenha falado muito.
— Ah, senhoritas, o tempo fugiu de nós — anunciou o rei. — Precisamos descer.
Conferi o relógio da sala. O rei estava certo: tínhamos cerca de dez minutos para descer e nos aprontar.
Meus sentimentos com relação à vida de princesa, a Maxon e todo o resto pareciam não importar. O rei evidentemente me via como uma candidata tão improvável que não queria perder tempo falando comigo. Fui excluída, talvez de propósito, e ninguém notou.
Aguentei firme durante o Jornal Oficial. Aguentei até a hora de dispensar as criadas. Assim que fiquei sozinha, desabei.

Não saberia como me explicar quando Maxon batesse à minha porta. Mas isso acabou não importando. Ele nem apareceu. E não pude deixar de me perguntar com quem ele estaria.
Capítulo 13
CORRI PARA FORA DO SALÃO. Era evidente que Celeste não me fizera um favor; ela quis me mostrar meu lugar. Por que eu me incomodava com isso? O rei esperava meu fracasso, o público não me queria, e eu tinha certeza de que não poderia ser princesa.
Subi as escadas rápida e silenciosamente, tentando não chamar a atenção. Não havia como saber quem era a fonte não identificada do palácio.
— Senhorita — Anne disse, ao me ver entrar — pensei que fosse permanecer no salão até o almoço.
— Você poderia sair, por favor?
— Perdão?
Bufei de raiva, mas tentei não perder a paciência.
— Preciso ficar só. Por favor.
As três fizeram uma reverência e saíram sem dizer uma palavra. Me sentei ao piano. Tentaria me distrair até não pensar mais naquilo. Toquei algumas músicas que sabia de cor, mas foi fácil demais. Precisava me concentrar de verdade.
Me levantei e revirei a banqueta do piano em busca de algo mais difícil. Folheei várias partituras até dar com a lombada de um livro. O diário de Illéa! Tinha esquecido completamente que estava comigo. Aquilo seria uma grande distração. Fui para minha cama com o livro em mãos e o abri, contemplando cada uma das páginas antigas antes de virá-las.
O diário abriu na página com a fotografia do Halloween; aquela foto rígida tinha servido como um verdadeiro marcador de página. Reli a entrada:

As crianças comemoraram o Halloween deste ano com uma festa. Imagino que seja uma maneira de esquecer o que se passa ao redor, mas me parece frívolo. Somos uma das poucas famílias remanescentes com dinheiro suficiente para festejar, mas essa brincadeira de criança me parece um desperdício.

Olhei novamente para a foto. Me detive especialmente na garota. Qual seria sua idade? Qual o seu cargo? Gostava de ser filha de Gregory Illéa? Será que isso a tornava muito popular?
Virei a página e percebi que o texto não era o começo de uma nova anotação, mas a continuação de um comentário mais extenso sobre o Halloween.

Eu achava que com a invasão chinesa veríamos os erros do nosso estilo de vida. Sempre me pareceu óbvio – especialmente nos últimos anos – que havíamos nos tornado uns preguiçosos. De fato, a facilidade com que a China entrou em nosso país não me surpreende. Tampouco me surpreendeu nossa demora em nos organizar e contra-atacar. Perdemos aquele espírito que levava as pessoas a atravessar os mares, os invernos arrasadores e a guerra civil. Ficamos preguiçosos. E enquanto descansávamos, a China assumiu as rédeas.
Nos últimos meses em particular, tenho sentido o desejo de doar mais do que dinheiro aos esforços de guerra. Quero liderar. Tenho ideias e, após minhas generosas doações, talvez seja o momento de oferecê-las também. Precisamos de mudança. Não posso deixar de perguntar-me se não serei a única pessoa capaz de realizá-la.
Senti calafrios. Não pude deixar de comparar Maxon a seu antepassado. Gregory parecia inspirado. Juntava os pedaços do país com o desejo de formar um todo. Me perguntei o que ele acharia da monarquia se estivesse vivo.
Quando Aspen abriu a porta silenciosamente naquela noite, morri de vontade de contar a ele o que tinha lido. Me recordei, porém, que eu já tinha falado com meu pai sobre a existência do diário, o que já era uma quebra do meu juramento feito a Maxon.
— Como vão as coisas? — perguntou Aspen, ajoelhado ao pé da minha cama.
— Tudo bem, acho. Celeste me mostrou este artigo hoje — comentei, para depois balançar a cabeça. — Não sei se quero falar disso. Estou tão cansada dela.
— Acho que com Marlee fora, ele vai demorar para dispensar alguém, não?
Dei de ombros. Sabia que o público estava ansioso por uma eliminação, e o que aconteceu com Marlee foi mais dramático do que o esperado.
— Ei — interveio ele, arriscando-se a se pôr sob a luz que entrava pela porta escancarada — vai ficar tudo bem.
— Eu sei. Só sinto saudades dela. E estou confusa.
— Confusa sobre o quê?
— Sobre tudo: o que faço aqui, quem sou eu. Pensei que soubesse... Não sei nem explicar direito.
Aquele parecia ser o meu problema. Todos os meus pensamentos estavam embaralhados. Era incapaz de organizá-los.
— Você sabe quem é, Meri. Não deixe eles mudarem você.
A voz dele era sincera. Me senti segura por um minuto. Não porque tivesse as respostas, mas porque tinha Aspen. Se algum dia perdesse de vista quem eu realmente era, sabia que ele estaria lá para me conduzir de volta.
— Aspen, posso lhe perguntar uma coisa?
Ele concordou. Continuei:
— É meio estranho. Se para ser princesa eu não precisasse casar com ninguém, se fosse apenas um cargo que eu pudesse escolher, você acha que eu seria capaz?
Aspen arregalou os olhos verdes por um segundo, como que contemplando a enormidade da pergunta. Para seu mérito, pude notar que pensou bem antes de responder.
— Perdão, Meri. Não acho. Você não é calculista como eles.
Seu rosto revelava um pouco de tristeza, mas não me ofendi por ele me achar incapaz de ser princesa. Só fiquei um pouco surpresa com seu raciocínio.
— Calculista? Como assim?              
Ele respirou fundo.
— Estou em toda parte, Meri, e escuto muita coisa. Há muita agitação no sul, nas áreas com grande concentração de castas inferiores. Segundo os guardas mais antigos, essas pessoas nunca concordaram muito com os métodos de Gregory Illéa, e já faz tempo que há conflitos na região. Dizem por aí que foi por isso que o rei ficou fascinado pela rainha. Ela veio do sul, e sua escolha acalmou as coisas por uns tempos. Parece que já não é mais assim.
Pensei de novo em mencionar o diário.
— Isso não explica o que você quis dizer com calculista — comentei.
Aspen hesitou.
— Outro dia, antes dessa história de Halloween, eu estava em um dos escritórios. Eles discutiam sobre simpatizantes dos rebeldes no sul. Pediram-me que levasse umas cartas para a ala postal em segurança. Havia mais de trezentas cartas, America. Trezentas famílias rebaixadas de casta por não terem denunciado alguma coisa ou por terem ajudado alguém que o palácio considerava uma ameaça.
Perdi até o ar.
— Eu sei — continuou Aspen. — Dá para imaginar? E se fosse você? Você só sabe tocar piano, e de repente, tem que arrumar emprego em um escritório. Como encontrar um emprego na área? A mensagem é bem clara.
Concordei.
— E Maxon... ele sabe disso?
— Acho que sim. Falta pouco para ele governar sozinho.
Meu coração não queria acreditar que ele tinha concordado com tudo isso, mas parecia provável. Ele tinha que estar consciente do que se passava e se conformar.
Seria eu capaz de fazer isso?
— Não conte para ninguém, certo? Um deslize como esse poderia custar meu emprego — alertou Aspen.
— Claro. Já esqueci.
Aspen sorriu para mim.
— Sinto saudades de estar com você, longe de tudo isso. Saudades dos nossos problemas de antes.
Achei graça.
— Entendo o que você quer dizer. Andar às escondidas pelo meu quintal é tão mais fácil do que no palácio.
— E desdobrar-me para arrumar uma moedinha para você era melhor que não ter nada para oferecer.
Ele deu uma batidinha no jarro ao lado da minha cama, o jarro que costumava conter centenas de moedinhas que ele me dera em pagamento por cantar para ele na casa da árvore, lá em casa.
— Eu não sabia que você guardava todas até a véspera da sua partida — acrescentou.
— Claro que eu guardava! Quando você estava longe, elas eram tudo o que me restava. Às vezes, eu as despejava em cima da cama só para juntá-las de novo. Era bom ter algo que você tinha tocado.
Nossos olhares cruzaram-se, e tudo o mais pareceu distante por uns momentos. Confortava-me estar novamente naquela bolha, o lugar que Aspen criara para nós anos atrás.
— O que você fez com elas? — perguntei.
Tinha ficado com tanta raiva dele antes de ir embora que devolvi todas. Todas menos aquela que ficou presa no fundo do jarro. Ele sorriu.
— Estão em casa, esperando.
— Esperando o quê?
Seus olhos brilharam.
— Isso eu não posso dizer.
— Ótimo — repliquei, entre um sorriso e um suspiro. — Guarde seus segredos. E não se preocupe por não ter nada para me dar. Já estou feliz por tê-lo aqui, por finalmente podermos acertar as coisas, mesmo que não seja como nos velhos tempos.
Evidentemente, isso não bastava para Aspen. Ele enfiou a mão por baixo da manga do casco e arrancou um de seus botões dourados.
— Literalmente, não tenho nada mais a oferecer, mas você pode agarrar-se a isto, uma coisa que toquei, e pensar em mim a qualquer hora. Pode ter certeza de que estarei pensando em você também.
Pode parecer tolice, mas queria chorar. Era inevitável, um instinto natural, comparar Aspen com Maxon. Mesmo naquele momento, quando o pensamento de ter que escolher entre um ou outro ia tão distante, eu os punha lado a lado.
Para Maxon, parecia ser muito fácil me dar coisas – até ressuscitar um feriado por minha causa, para garantir que eu tivesse do bom e do melhor – porque ele tinha o mundo à disposição. E lá estava Aspen: me dando preciosos momentos roubados e uma ninharia para manter-nos conectados. E a impressão era de que ele me dera muito mais.
Lembrei-me de repente que Aspen sempre tinha sido assim. Ele sacrificava seu sono por mim; arriscava-se a ser pego depois do toque de recolher por mim; arrumava moedinhas para mim. Era mais difícil enxergar a generosidade de Aspen porque não era grandiosa como a de Maxon. O coração por trás dela, porém, era muito maior.
Afastei novamente a vontade de chorar.
— Não sei como fazer isso agora. Sinto que não sei mais fazer nada. Eu... eu não esqueci você, certo? Você ainda está aqui.
Levei as mãos ao peito. Por um lado para mostrar o significado de minhas palavras a Aspen; por outro, para aliviar o desejo estranho que estava ali. Ele compreendeu.

— Isso basta para mim.