Capítulo 10
MANTIVE A CABEÇA BAIXA durante o jantar.
No Salão das Mulheres, fui corajosa porque Marlee estava ao meu lado, e ela me
achava legal. Mas ali, espremida entre duas pessoas que emitiam ondas de ódio
na minha direção, não passava de uma covarde. E Ashley, com todo o seu jeito
de dama, fazia bico e não falava comigo.
Eu
só
queria fugir para o quarto.
Não
entendia por que aquilo era tão importante. As pessoas gostavam de mim, e daí?
Elas não tinham poder no palácio. Seus cartazes e incentivos não importavam.
Depois
de tudo o que foi dito e feito, eu não sabia se me sentia honrada ou
incomodada.
Concentrei
minhas forças no jantar. A última vez em que vira um bife tinha sido no Natal,
alguns anos antes. Minha mãe tinha feito o melhor que podia, mas não tinha
chegado nem perto daquele bife. Era suculento, tenro e saboroso. Queria
perguntar a alguém se também era o melhor bife que tinha comido na vida. Se
Marlee estivesse por perto, perguntaria a ela. Tentei ver minha amiga pelo
canto dos olhos em algum lugar da sala. Ela conversava tranquilamente com as
pessoas a seu redor.
Como
fazia isso? Por acaso a mesma gravação não a tinha apontado como uma das
favoritas? Por que as pessoas ainda falavam com ela?
A
sobremesa consistia em frutas variadas e sorvete de baunilha. Nunca tinha
comido coisa igual. Se isso era comida, o que era aquilo que eu tinha posto na
boca até então? Pensei em May e em como gostava de doces tanto quanto eu. Ela
teria adorado a sobremesa. Podia apostar que se daria muito bem ali.
Ninguém
tinha autorização para deixar a mesa até que todas tivessem terminado. Depois
disso, recebemos ordens estritas para ir direto para a cama.
—
Afinal, vocês vão conhecer o príncipe Maxon pela manhã e vão querer estar bem
dispostas e apresentáveis — explicou Silvia. — Ele é o futuro marido de alguém
nesta sala, afinal.
Algumas
garotas suspiraram diante dessa perspectiva.
O
toc-toc dos sapatos subindo as escadarias era mais baixo dessa vez. Eu mal
podia esperar para tirar os meus. E o vestido também. Tinha uma muda de roupas
na mala e estava pensando se as usaria apenas para sentir que era eu mesma por
uns instantes.
O
grupo se dispersou no alto da escada e cada menina foi para seu quarto. Marlee
me puxou de lado.
—
Você está bem? — ela perguntou.
—
Estou. É que umas garotas ficaram me olhando torto durante o jantar — respondi,
tentando não parecer reclamona.
—
Elas só estão nervosas porque todo mundo gostou tanto de você — Marlee
garantiu, não dando muita importância ao comportamento das outras.
—
Mas as pessoas também gostaram de você. Eu vi os cartazes. Por que as meninas
não foram umas chatas com você também?
—
Você nunca passou muito tempo com um grupo de garotas, passou? — ela tinha um
sorriso malicioso nos lábios, como se soubesse o que estava acontecendo.
—
Não. Quase sempre fico só com minhas irmãs — confessei.
—
Você foi educada em casa?
—
Sim.
—
Bem, eu estudo com um monte de outras garotas da casta Quatro na minha
província. Cada uma delas tem seu jeito de pisar no calo das outras. Elas
querem conhecer a pessoa, descobrir o que mais a irrita. Várias meninas me
fazem elogios falsos ou comentários atravessados, coisas assim. Eu sei que
pareço eufórica, mas no fundo sou tímida, e elas acham que podem me atingir com
palavras.
Cocei
a cabeça. Então elas faziam de propósito?
—
E ainda mais você, uma pessoa quieta e misteriosa...
—
Não sou misteriosa — cortei.
—
É um pouco. E às vezes as pessoas não sabem se interpretam o silêncio como
confiança ou medo. Elas olham como se você fosse um inseto para que você talvez
se sinta como se fosse.
—
Hum...
Fazia
sentido. Comecei a pensar se meus modos de certa forma não cutucavam a
insegurança das outras.
—
O que você faz? Quero dizer, como você tira o melhor delas? — perguntei a
Marlee.
Ela
sorriu.
—
Ignoro. Conheço uma garota na minha cidade que fica muito irritada quando não
consegue me incomodar e acaba de cara fechada. Então, não se preocupe — ela
continuou. — Tudo o que você precisa fazer é não deixar que percebam que estão
atingindo você.
—
Elas não estão.
—
Estou quase acreditando — disse Marlee dando uma risadinha, um som cálido que
evaporou naquele corredor quieto. — E você acredita que vamos conhecer o
príncipe amanhã? — ela perguntou, passando para o assunto que considerava mais
importante.
—
Na verdade, não.
Maxon
parecia um fantasma assombrando o palácio. Fazia parte dele, mas não estava lá
de fato.
—
Bem, boa sorte — ela desejou, e eu sabia que era de coração.
—
Mais sorte ainda para você, Marlee. Tenho certeza de que o príncipe vai ficar
mais do que encantado ao conhecer você.
Apertei
as mãos dela. Marlee sorriu de um jeito emocionado e tímido ao mesmo tempo,
depois foi para o quarto.
Quando
me dirigia ao meu escutei Bariel resmungar alguma coisa com a dama de
companhia. Ela me viu e bateu a porta na minha cara.
Muito
educada.
Minhas
criadas estavam no quarto, claro, esperando para me despir e me lavar. Minha
camisola, uma coisinha verde e frágil, já tinha sido estendida na cama. Elas
tiveram a delicadeza de não tocar na minha mala.
As
criadas eram eficientes e cuidadosas. Era óbvio que sabiam de cor essa rotina
do fim do dia, mas não a faziam às pressas. Acho que a intenção delas era
oferecer conforto, mas eu queria mesmo era despachá-las. Não podia apressá-las
enquanto lavavam minhas mãos, desamarravam meu vestido e punham o broche
prateado com meu nome na camisola. Enquanto faziam essas coisas, elas ainda
lançavam perguntas que me deixavam incrivelmente constrangida. Eu tentava
responder sem ser grossa. Sim, eu tinha visto as outras meninas; não, elas não
falavam muito; sim, tinha sido um jantar fantástico; não, eu só ia conhecer o
príncipe no dia seguinte; sim, eu estava muito cansada.
—
E ia me ajudar muito a espairecer se pudesse passar um tempo sozinha —
acrescentei ao final da última resposta, na esperança de que entendessem a
deixa.
Na
verdade, elas ficaram com um ar decepcionado. Tentei consertar.
—
Vocês todas são muito prestativas. É que estou acostumada a ficar um pouco
sozinha. E fiquei rodeada de gente o dia todo.
—
Mas senhorita Singer, é nosso dever ajudá-la. É nosso trabalho — replicou Anne,
que parecia ser a chefe delas. Ela estava à frente de tudo, Mary era a mais
sossegada e Lucy parecia bem tímida.
—
Gosto muito do trabalho de vocês, e com certeza vou precisar de ajuda para
começar o dia amanhã. Mas esta noite só preciso relaxar. Se quiserem ajudar, um
tempo sozinha seria bom para mim. E se vocês estiverem bem descansadas pela
manhã, estou certa de que poderão fazer tudo da melhor maneira, não acham?
Elas
trocaram olhares.
—
Bem, imagino que sim — concordou Anne.
—
Uma de nós deve ficar aqui enquanto a senhorita dorme. Caso precise de algo —
disse Lucy, aparentando nervosismo, como se temesse a decisão que eu tomaria.
Ela parecia dar uma leve tremida de vez em quando. Acho que era a timidez vindo
à tona.
—
Se eu precisar de algo, toco a campainha. Vai ficar tudo bem. Além disso, eu
não ia conseguir dormir sabendo que alguém está me vigiando.
Elas
trocaram olhares de novo, ainda um pouco céticas. Eu sabia um jeito de pôr fim
nisso, mas detestava ter que usá-lo.
—
Vocês devem obedecer todas as minhas ordens, certo?
Elas
concordaram com a cabeça, esperançosas.
—
Então eu ordeno que vão para a cama e me ajudem amanhã de manhã. Por favor.
Anne
sorriu. Acho que ela estava começando a me entender.
—
Sim, senhorita Singer. Nós a veremos pela manhã.
As
três fizeram uma reverência e saíram do quarto. Anne me lançou um último olhar.
Acho que eu não era exatamente o que ela esperava, mas não parecia estar muito
irritada com isso.
Assim
que elas saíram, descalcei minhas luxuosas pantufas e estiquei os dedos dos pés
no chão. Ficar descalça dava uma sensação boa, natural. Comecei a desfazer
minha mala, o que foi rápido. Mantive minha muda de roupa enfiada na mala e a
guardei no armário gigantesco. Dei uma olhada nos vestidos. Eram poucos, o
suficiente para mais ou menos uma semana. Acho que as outras tinham o mesmo
número de vestidos. Por que fazer dúzias para uma garota que talvez saísse no
dia seguinte?
Peguei
as poucas fotos que tinha da minha família e prendi na moldura do espelho. Era
tão alto e largo que podia ver as fotos sem tapar a visão do meu corpo. Eu
tinha uma caixinha com bijuterias e laços que eu adorava. Provavelmente seriam
considerados simples demais ali, mas eram tão pessoais que eu tive que levá-los
comigo. Os poucos livros que carregara encontraram um lugar na útil prateleira
próxima da porta que levava para a sacada.
Enfiei
a cabeça pela porta e vi o jardim. Havia um labirinto de alamedas com bancos e
fontes. As flores brotavam de toda parte, e cada uma delas estava perfeitamente
podada. Para além desse pedaço de terra claramente produzido ficava um campo
aberto, e mais adiante havia uma floresta imensa. Estiquei-me ao máximo, mas
não consegui ver se toda ela ficava dentro dos muros do palácio. Pensei por alguns
minutos por que motivo ela existia, e então deparei com o último item de casa
que segurava nas mãos.
Meu
pequeno jarro com a moedinha dançante. Rolei-o nas mãos algumas vezes,
escutando-a deslizar pelos cantos do vidro. Por que eu tinha levado aquilo?
Para me lembrar de algo que não podia ter?
Esse
simples pensamento – de que o amor que tinha construído por anos em um lugar
quieto e secreto estava fora de alcance – fez meus olhos se encherem de
lágrimas. Eu não conseguia aguentar mais essa depois de toda a emoção daquele
dia. Não sabia onde o jarro ficaria, mas deixei-o no meu criado-mudo.
Baixei
as luzes, arrastei-me sobre aqueles cobertores luxuosos e olhei para o jarro.
Deixei-me levar pela tristeza. Deixei meu pensamento ir até ele.
Como
eu podia ter perdido tanto em tão pouco tempo? Pensava que deixar minha
família, viver em um lugar estranho e ser separada da pessoa amada eram
acontecimentos que demoravam anos para ocorrer, não apenas um dia.
Eu
me perguntava o que exatamente ele queria me dizer antes de eu partir. A única
coisa que pude deduzir era que não se sentia à vontade para falar em voz alta.
Seria sobre ela?
Olhei
fixamente o jarro.
Será
que ele queria pedir desculpas? Eu tinha lhe dito poucas e boas na noite
anterior. Talvez fosse isso.
Será
que ele queria dizer que tinha me superado? Bem, eu tinha visto claramente que
sim, não havia por que dizer.
Será
que ele queria dizer que não tinha me superado? Que ainda me amava?
Afastei
o pensamento. Não podia deixar aquela esperança crescer dentro de mim. Eu
precisava odiá-lo. Esse ódio me faria avançar. Ficar o mais distante dele pelo
maior tempo possível era grande parte do motivo de estar ali.
Mas
a esperança doía. E com ela vieram as saudades de casa. A vontade de que May
fosse escondida até minha cama, como fazia às vezes. E o medo de que as outras
meninas me quisessem fora e continuassem me diminuindo. Depois o nervosismo de
aparecer na TV para o país inteiro. E o terror de que alguém tentasse me matar
como forma de protesto político. Tudo veio rápido demais para que minha cabeça
confusa desse conta de processar num dia tão longo.
Minha
vista ficou embaçada. Nem reparei quando comecei a chorar. Não conseguia
respirar. Estava tremendo. Pulei da cama e corri até a sacada. O pânico era
tanto que demorei um pouco para abrir a trava, mas consegui. Pensei que o ar
fresco me faria bem, mas não fez. Minha respiração continuava curta e fria.
Não
existia liberdade ali. As barras da sacada me mantinham presa. E eu podia ver
os muros ao redor do palácio: altos, com guardas em pontos estratégicos.
Precisava sair do palácio e ninguém ia permitir que isso acontecesse. O
desespero me deixou ainda mais fraca. Olhei para a floresta. Poderia apostar
que nem de lá conseguiria ver nada além do verde.
Voltei
para dentro e travei a porta da sacada. Estava um pouco insegura com aquelas
lágrimas nos olhos, mas consegui sair do quarto. Corri pelo único corredor que
conhecia sem ver a arte, a tapeçaria ou os batentes dourados. Quase não percebi
os guardas. Eu não conhecia muito bem o castelo, mas sabia que se descesse as
escadas e virasse à direita ia encontrar as enormes portas de vidro que davam
para o jardim. Eu só queria chegar até essas portas.
Corri
pela imponente escadaria. Meus pés descalços soavam como tapinhas no chão de
mármore. Havia mais um punhado de guardas, mas nenhum deles me parou. Quer
dizer, não até eu chegar ao lugar que buscava.
Como
antes, dois homens montavam guarda ao lado das portas, e quando tentei correr
até elas, um dos homens se pôs à minha frente, e o bastão em forma de lança
impediu minha saída.
—
Perdoe-me, mas a senhorita deve voltar para o quarto — ele ordenou, com
autoridade. Ainda que não falasse alto, sua voz trovejava em meio ao silêncio
do elegante corredor.
—
Não... não... Eu preciso... sair — as palavras se misturavam; eu não conseguia
respirar direito.
—
Senhorita, vá para seu quarto agora.
O
segundo guarda caminhava na minha direção.
—
Por favor — comecei a arfar.
Pensei
que ia desmaiar.
—
Sinto muito... senhorita America, certo? — ele achou meu broche. — A senhorita
deve voltar para o quarto.
—
Eu... não consigo respirar — gaguejei e caí nos braços do guarda que se
aproximava para me empurrar.
O
bastão dele caiu no chão. Agarrei-me a ele já sem forças. O esforço me deixou
tonta.
—
Deixem-na sair!
Era
uma voz jovem, mas cheia de autoridade. Minha cabeça se voltou em sua direção,
um pouco de propósito e um pouco sem querer. Ali estava o príncipe Maxon. Ele
parecia um tanto estranho graças ao ângulo em que minha cabeça pendia, mas
reconheci o cabelo e o jeito travado.
—
Ela desmaiou, Alteza. Queria sair.
O
primeiro guarda parecia nervoso ao tentar explicar. Ele se meteria em uma
encrenca terrível se me machucasse. Eu era propriedade de Illéa.
—
Abram as portas.
—
Mas... Alteza...
—
Abram as portas e deixem-na sair. Agora!
—
Imediatamente, Alteza.
O
primeiro guarda tratou de obedecer, sacando uma chave. Minha cabeça continuava
numa posição estranha enquanto eu ouvia o tilintar das chaves e o ruído que uma
delas produziu ao encaixar na fechadura. O príncipe me olhava com atenção
enquanto eu tentava ficar em pé. Foi quando o cheiro doce do ar fresco tomou
conta de mim e me deu toda a motivação de que precisava. Soltei-me dos braços
do guarda e corri como uma bêbada para o jardim.
Eu
ainda tropeçava um pouco, mas não me importava de parecer menos graciosa. Só
precisava ficar lá fora. Deixei meu corpo sentir o ar morno na pele, a grama
sob os pés. De algum modo, até a natureza parecia extravagante ali. Eu queria
percorrer todo o caminho até as árvores, mas minhas pernas só podiam me
carregar até aquele ponto. Cambaleei diante de um pequeno banco e ali fiquei:
com a camisola verde e fina sobre a terra e a cabeça apoiada no braço sobre o
assento.
Meu
corpo não tinha forças para soluçar, então as lágrimas desceram em silêncio.
Ainda assim, tiraram toda a minha concentração. Como tinha chegado até ali?
Como eu tinha deixado isso acontecer? O que seria de mim? Algum dia eu
conseguiria pelo menos um pedaço da vida que tinha antes disso de volta? Eu
simplesmente não sabia. E não havia nada que pudesse fazer quanto a isso.
Estava tão perdida em meus pensamentos que só percebi que tinha companhia
quando o príncipe Maxon começou a falar comigo.
—
Está tudo bem, querida? — ele perguntou.
—
Eu não sou sua querida.
Levantei
a cabeça para encará-lo. Era impossível não notar o nojo no meu tom de voz e
nos meus olhos.
—
O que eu fiz para ofender a senhorita? Por acaso não lhe dei exatamente o que
queria?
Ele
ficou confuso com a minha resposta. Acho que esperava que o adorássemos e
agradecêssemos aos astros por sua existência.
Encarei-o
novamente, sem medo, embora não tivesse dúvida de que o efeito fora diluído
pelas lágrimas nas minhas bochechas.
—
Com licença, querida, mas você vai continuar chorando? — ele perguntou,
parecendo muito incomodado com minhas lágrimas.
—
Não me chame assim! Não sou mais querida para você do que as outras trinta e
quatro estranhas que você mantém aqui nessa jaula.
Ele
se aproximou, sem parecer minimamente ofendido por minhas palavras vis. Só
parecia... pensativo. Havia uma expressão interessante em seu rosto.
O
príncipe tinha um andar gracioso para um rapaz, e parecia incrivelmente
confortável dando voltas ao meu redor. Minha coragem se desmanchou um pouco
diante da estranheza da situação. Ele estava completamente vestido, com seu
terno ajustado, e eu estava encolhida e seminua. Se sua posição na hierarquia
já não me assustava muito, sua atitude ainda assustava. Ele devia ter vasta
experiência em lidar com pessoas infelizes; suas respostas eram
excepcionalmente calmas.
—
Sua afirmação é falsa. Todas vocês são queridas por mim. Trata-se simplesmente
de descobrir quem há de ser a mais querida.
—
Você disse mesmo “há de ser”?
Ele
segurou uma risada.
—
Receio que sim. Perdoe-me. É fruto da minha educação.
—
Educação — resmunguei. — Ridículo.
—
Perdão?
—
É ridículo! — gritei, recuperando um pouco de coragem.
—
O que é ridículo?
—
O concurso! Tudo! Você nunca amou ninguém na vida? É assim que quer escolher
sua mulher? Você é baixo a esse ponto?
Ajeitei-me
um pouco no chão. Para facilitar minha vida, ele se sentou no banco, de modo
que eu não precisava mais me torcer. Eu estava muito brava para agradecer.
—
Entendo que possa dar essa impressão, que tudo possa ser visto como
entretenimento barato. Mas meu mundo é muito fechado. Não conheço tantas
mulheres. As poucas que conheço são filhas de diplomatas, e geralmente temos
pouquíssimos assuntos em comum. Isso quando falamos a mesma língua.
Maxon
achava aquilo engraçado e deu uma risadinha. Não fiquei impressionada. Ele
limpou a garganta.
—
Sendo essas as circunstâncias, nunca tive a oportunidade de me apaixonar. E
você?
—
Tive — respondi na lata.
Logo
que as palavras saíram de minha boca, quis pegá-las de volta. Era um assunto particular,
não era da conta dele.
—
Então você teve muita sorte — havia um pouco de ciúme em sua voz.
Imagine
só! A única coisa que eu podia atirar na cara do príncipe de Illéa era
exatamente aquilo que eu queria esquecer.
—
Minha mãe e meu pai se casaram assim e são muito felizes. Tenho esperança de
alcançar a felicidade, de encontrar uma mulher que toda a Illéa possa amar,
alguém que possa ser minha companheira e me ajude a receber os líderes de
outras nações. Alguém que seja amiga dos meus amigos e minha confidente. Estou
pronto para encontrar minha esposa.
Algo
em sua voz me abalou. Não havia nenhum traço de sarcasmo. Aquilo que parecia
pouco mais que um programa de TV para mim era a única chance que o príncipe
tinha de ser feliz. Ele não podia pedir um segundo lote de mulheres. Bom,
talvez pudesse, mas seria vergonhoso. Estava tão desesperado, tão
esperançoso... Senti minha raiva por ele diminuir. Um pouco.
—
Você realmente acha que aqui é uma jaula? — os olhos dele estavam cheios de
compaixão.
—
Sim, eu acho — minha voz saiu calma. Rapidamente acrescentei: — Majestade.
Ele
riu.
—
Eu mesmo já pensei nisso mais de uma vez. Mas você deve admitir que é uma jaula
muito bonita.
—
Para você. Encha sua jaula com mulheres brigando pela mesma coisa e veja que
legal é.
Ele
levantou as sobrancelhas.
—
Mas já ocorreram discussões por minha causa? Será que vocês não percebem que
sou eu que faço a escolha? — ele disse, rindo.
—
Na verdade, não é bem assim. Elas brigam por duas coisas. Algumas por você,
outras pela coroa. E todas pensam já saber o que falar e dizer para que sua
escolha seja óbvia.
—
Ah, sim. O homem ou a coroa. Receio que algumas não saibam ver a diferença —
afirmou, balançando a cabeça.
—
Boa sorte com isso — comentei, seca.
Tudo
ficou calmo depois dessa demonstração de sarcasmo. Olhei para ele com o canto
dos olhos, desejando que dissesse algo. O príncipe fitava a grama com o rosto
cheio de preocupação. Parecia que essa ideia o estava infernizando já havia
algum tempo. Ele respirou fundo e se voltou para mim.
—
E você, pelo que luta?
—
Na verdade, estou aqui por engano.
—
Engano?
—
É, mais ou menos. Bem, é uma longa história... Estou aqui. E não estou lutando.
Meu plano é aproveitar a comida até você me chutar.
Ele
riu tanto que se inclinou para trás e deu um tapa no joelho. Uma mistura
bizarra de rigidez e calma.
—
O que você é?
—
Como?
—
Um? Dois?
Será
que ele não prestava atenção?
—
Sou Cinco.
—
Ah, sim. Então a comida deve ser um bom motivo para ficar.
Ele
riu de novo e continuou:
—
Sinto muito, não consigo ler seu broche no escuro.
—
Meu nome é America.
—
Muito bem, perfeito.
Os
olhos de Maxon se perderam na noite e ele sorriu sem motivo aparente. Algo
nisso tudo o impressionava.
—
America, minha querida, espero muito que encontre algo nesta jaula por que
valha a pena lutar. Depois de tudo isso, não posso deixar de imaginar como
seriam as coisas se você realmente se esforçasse.
Ele
desceu do banco e se agachou ao meu lado. Estava perto demais. Eu não conseguia
pensar direito. Talvez estivesse um pouco ofuscada pela fama dele. Ou ainda um
pouco abalada pelo choro. Em todo caso, estava chocada demais para reclamar
quando pegou minha mão.
—
Se isso a deixar feliz, posso informar aos funcionários que você prefere ficar
no jardim. Assim, você pode vir aqui à noite sem ser incomodada pelos guardas.
No entanto, acho que seria bom se houvesse sempre um deles por perto.
Eu
queria. Qualquer tipo de liberdade me parecia uma bênção, mas eu precisava ter
certeza absoluta de meus sentimentos.
—
Não... não sei se quero algo que venha de você — eu disse, puxando meus dedos
daquela mão que me segurava de leve.
Ele
ficou um pouco surpreso e magoado.
—
Como quiser.
Senti
mais arrependimento. Não gostar daquele cara não significava que eu podia
magoá-lo.
—
Você vai voltar para dentro daqui a pouco? — ele perguntou.
—
Sim — respondi com um suspiro, olhando para o chão.
—
Então vou deixá-la com seus pensamentos. Haverá um guarda perto da porta
esperando.
—
Obrigada, errr... Alteza.
Balancei
a cabeça. Quantas vezes eu o tinha tratado indevidamente na conversa?
—
Querida America, você poderia me fazer um favor? — ele pegou minha mão
novamente. Parecia muito persistente.
Olhei-o
com o canto dos olhos, sem saber direito o que dizer.
—
Talvez — repliquei.
Seu
sorriso voltou.
—
Não conte isso às outras. Tecnicamente, não devo conhecê-las até amanhã. Não
quero irritar ninguém. Embora não possa dizer que seus gritos tenham qualquer
semelhança com um encontro romântico, não acha?
Foi
minha vez de sorrir:
—
Nem de longe! — respirei fundo e acrescentei: — Não contarei.
—
Obrigado.
Ele
encostou os lábios na minha mão. Antes de se afastar, pousou-a delicadamente
sobre minhas pernas.
—
Boa noite — concluiu.
Olhei
para o local do beijo na minha mão, atônita por uns segundos. Então voltei o
rosto para ver Maxon sair e me dar a privacidade que eu passara o dia querendo.
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